sexta-feira, agosto 31, 2007

Dias importantes da nossa vida..

Certa vez perguntei qual foi o dia mais importante na vida de minha mãe, ela me disse que foi quando eu e minha irmã nascemos....meu pai tambem disse a mesma coisa, e completou quando ele nasceu de novo após uma complicadissima cirurgia que fez no cérebro...Minha vida foi um pouco tumultuada, bem tumultuada, tumultuadissima....Minha infancia foi dentro de um megacondomínio fechado vertical e modernista em SCS, lá viviamos o milagre econômico visto pelos olhos dos metalurgicos, algo que talvez hoje, seria transformado num drama de suburbio-crime-violência, foram mágicos aqueles dias, aquela época distante e nostálgica.
Minha mudança para Juiz de Fora foi traumática, não queria ir para aquela cidade, aquele povo de fala estranha, aquele prédio, feio e mofado....o contato com meus avós maternos diminuiram o trauma dos primeiros momentos...minha nova escola tinha tradição e qualidade, meus novos colegas; como eu vinham das mais diversas cidades, porem do êxodo rural. Eu vinha do anti-êxodo...
Anos passaram, amigos, amores, skate, reggae, hardcore, metal, punk, choro, samba, mpb, diskman, camelinho, milhões de papos, cervejas, festas, ficadas, fins-de-noite que não acabavam nunca...
Vestibular... Não tive a oportunidade de fazer o que gostava, sonho da época que consegui pegar umas ondas...Oceanografia, curso distante, mas não impossível...
Comunicação UFES, nova vida, sol, praia, garotas, falta de dinheiro....go back Juiz de fora....
Vestibular... Fiquei na rabeta... Arquitetura e Urbanismo...
Lembro que no dia que escolhi o curso... estavam trocando a fiação dos poste da Av. Rio Branco, e por uns instantes a Engenharia elétrica ou Cívil, dançaram com o doce perfume de sua sedução cruel frente as minhas aspirações do que faria durante a minha vida... Arquitetura e Urbanismo... não sabia bem o que era...
Niemeyer, meus avós, que da forma deles também fizeram suas construções com o espírito da época, com materiais, com o sonho e a intenção de produzir algo habitável e humano...código 33, segunda opção código 24. Arquitetura ou Engenharia Cívil. o jogo estava lançado numa manhã fria de novembro do ano de 98....
O primeiro dia na faculdade, parecia cada vez mais longe, os anuncios na rádio-praia em Piúma, deixaram-me atordoado.... Eles começaram a ler todos os aprovados (depois de Cabo Frio, Piúma e Iriri/ES, são redutos de Juizforanos de férias).
Na época namorava a Marcela e estava com sua irmã que acabara de ser aprovada em Educação Fisica; lembro-me em pedir uma cerveja "prá comemorar" e engulir aquela derrota... mas não desanimei, peguei nos correios um papel do instituto universal brasileiro e começei a fazer o curso de desenho arquitetônico... era curioso e dramática minha atuação..
A primeira aula foi no ICE, encontrei-os juntos como gado acuado no matadouro, pessoas que deveria passar 5 anso de faculdade.. Gostei de ver 5 mulheres para cada rapaz era uma matemática que muito me agradava...
Havia umas meninas bem bonitinhas, e pensei: já é...o trote foi sádico como eu esperava, nada de mais...nem lembro direito só lembro de um palitinho e a minha felicidade de passar para uma colega lindinha... a facul é algo curioso... vc aprende mais na cantina e nas viagens do que na sala, a cantina, a biblioteca, o bar e as reuniões dos trabalhos moldaram minha geração de profissionais. milhares de quilometros de esboços, croquis, e perspectivas em guardanapos, toalhas de mesa, e papeis desviados a tal fim...
Durante a facul, vi meninas se transfomando em mulheres, peruas, bruacas; garotos, em homens, profetas, automatos, ou lunáticos... Um imenso laboratorio de vida e de transformação.... Vivi com os melhores, piores, e a sombras de nossa época... mas chega o dia do ... -Vai lá meu filho! e te dão uma folha meio transparente, com os dizeres de sua nova profissão...
nesse dia havia perdido minha carteira em Tiradentes, durante a mostra de cinema... protelando por dois meses minha saida...
cheguei, subi a sala do pró-reitor, mais três ou quatro..um juramento e a tal folha estava em minhas mãos...
A vida de profissional num país como o nosso beira o desespero, tudo e todos os impostos, nenhum incentivo ou orgão de encaminhamento de empregos ou projetos, um mundo do cão e da selvageria, Engenheiros, pedreiros, mestres, desenhistas, arquitetos, não-seis, se acotovelando, se esmagando mutuamente por um lugarzinho que seja... 2 anos de aperto, lutas, clientes, bons e ruins... Chega!
- Ano que vem serei funcionário-público, profetizei na virada do ano na minha terra natal..como um ciclo que se fechava ...voltará eu de onde havia saído, e agora punha um objetivo claro do que seria minha nova escolha, um novo marco, um novo rumo...
começo a me dedicar, a estudar, vem o primeiro, segundo... terceiro.... começa a vir os resultados...12º, 4º, 2º...passei...
A ansiedade de esperar um resultado, pode proporcionar desde de uma dor-de-cabeça a uma dermatite...que foi meu caso... Yoga, Respiração, Oração, tudo prá espantar a ansiedade...
o melhor de tudo é ver seu nome na lista...na boa lista é claro....
Hoje o vi, estava lá com meus novos companheiros de trabalho, um após o outro..
Estou numa felicidade misturada com ceticismo, pois o objetivo era claro...Agora vem o dia de amanhã...mas isso é uma outro história..

segunda-feira, agosto 27, 2007

O Dia em que Oscar Niemeyer encontrou Dois Bêbados

-Vc, quem são vcs... o velho interroga
-Eu sou o senhor ontem...o bebado invoca
-Deus me livre, eu não acredito em Deus , mas credo...o velho retoca
-pode crê...o outro bebado entorta
-Ê aí... o velho pipoca
-Queremos conversar...o bebado tenciona
-Vamos seu Oscar..o segurança questiona
-Somos estudantes, de Minas ...o bebado leciona
-Marca com a Vera...o velho e a matrona
-É ...o bebado emociona
sobe o velho e o segurança sobra os bebados e a esperança...até hoje um dos bebados lembra desse fato curioso...

domingo, agosto 26, 2007

Vida de Estagiário..

Sempre quis ser um profissional competente, aprender com quem sabia os segredos e o "caminho das pedras" da minha profissão, e deparar com desafios como degraus de uma escada longa da carreira..
Durante a faculdade comecei a estagiar cedo, pois o ensino é sucateado e te dá uma visão limitada do mundo, você apenas está vendo pelo ponto de vista do professor e de alguns autores e nada mais. Fiz estágios em orgãos públicos e em empresas privadas e abaixo relaterei um causo:
Nos idos de 2004, o então Prefeito pôs em pratica a reforma administrativa, aos olhos de quem estava de fora do processo parecia que estavamos no caminho certo.... Eventos como a palestra de nada menos que um dos responsáveis pela transformação de Barcelona... Plano de Desenvolvimento Estratégico...
A empolgação estava no ar, um conhecido meu havia conseguido um estágio na Diretoria de politica urbana, via QI; Usando da mesma desculpa, liguei para a prefeitura na maior cara de pau e disse que eles tinham uma vaga para mim e fulano que tinha me indicado...Batata..
segunda-feira eu começaria no Centro Regional Centro...
Na época meu visual universitário beirava o trash... tinha um cabelo black-power... cavanhaque... roupas largas e tenis vermelho...
Chegada a segunda... Eram duas da tarde, subi as escada da repartição e me dirigi aos boxes da Supervisão técnica, lá minha chefe-imediata me esperava, converçamos sobre minhas responsabilidades e fui conhecer meus superiores, o Diretor da Regional e o Supervisor, pessoas integras e que desempenhavam bem os seus papéis..
Fui tomar um cafezinho na copa e me deparei com os fiscais ... eles ao me verem esperavam cada um em sua cadeira pelo "cabeludo", que fosse pedir alguma muamba que eles haviam apreendido... nada passei ao largo e fui ao meu box...Os fiscais se levantaram e me seguiram com olhar...no próximo café fui interrogado por milhões de boas-vindas e de onde vc vem...
O trabalho numa nova divisão da prefeitura era algo estranho, não tinhamos autonomia para nada e parecia que estavamos numa engrenagem nova, de uma velha maquina, encaixavam bem mas ninguem sabia para que servia... Eu tinha que levantar as demandas das comunidades e fazer pequenos projetos de intervenção para futuras execuções.. tinhamos as associações de moradores e o jornal do município como fontes, o trabalho era necessário porém pouco valorizado, pelo detentores de recursos da máquina administrativa....
Aos poucos fui vendo que só a supervisão dos aspectos urbanos, em realidades que as construções é que necessitavam de ajuda...Mexendo em antigos projetos me deparei com um projeto dos anos 40-50 da prefeitura; casas operárias/proletárias... projetos prontos aos menos favorecidos... achei os projetos ultrapassados, mas a idéia atual e me propuz a atualizar a idéia, não com o formalismo das plantas e sim do projeto adaptado a realidade do morador, durante um mês pus-me a vetorizar e criar maquetes virtuais dos novos projetos...montei um folder aos interessados e enviei aos detentores de recursos a idéia repensada...(espero até hoje o retorno)
Dias passaram e nada, então minha superiora dividiu comigo a tarefa de analisar os projetos para aprovação na nossa regional, pois o serviço chegava a acumular 3 meses de espera.
Peguei o código de obras do município li e começei a interpletar os projetos com a luz da lei, vi como os projetistas, não entendiam nada de distribuição espacial, organizavam plantas num jogo de aperta-encolhe, como se a vida de seres humanos fosse não a finalidade daqueles projetos e sim um mero detalhe no scale do AUTOCAD, projetos que deveriam levar a cadeia quem os fez e quem os encomendou... minhas críticas foram exteriorisadas em apenas um projeto que rejeitei...
Era um prédio de três pavimentos a ser construido no meu bairro; dois quartos, sala,cozinha e área conjugada por unidade, quatro unidades por andar. O terreno era de uma antiga cas com quintal, espaçosa e humana.
O projeto começou errado, não levou em conta os afastamentos, as dimensões mínimas de cada cômodo, tinha um foso com lugar para iluminaçãoe e ventilação, na minha mão estava um código de obras que teve sua origem os melhores cõdigos europeus e que tinha as medidas mínimas para uma vida com o mínimo de dignidade.
Diferentemente da minha superiora, peguei um marca texto vermelho e tracei os afastamentos, os raios, as medidas mínimas, o resultado final ficou entre o surrealismo e o cubismo, uma prancha toda redesenhada. Peguei o carimbo e bac... rejeitado. Fechei o processo e coloquei na minha nova pilha sobre a mesa da minha chefe.
Na manhã do outro dia... Um Nossa.... estridente encheu os corredores da repartição, o choque de ver aquilo deixou-a perplexa... Imediatamente ligou para o proprietário e marcou a tarde... Duas horas chego, como todo dia; sento, ligo o computador, levanto, vou ao café volto, e me deparo com o processo aberto sobre minha mesa, e o olhar de agradecimento misturado com o horror de minha chefa...
-Anderson, era mais ou menos assim, mas não com tanta dedicação..
Chefa,interrompo:
-Marque com o proprietário que eu explico, tudo tudo ao interessado;
-ele já deve estar chegando.Ela me diz.
Entra um senhor distinto, bem arrumado, porém fedia como se não tomasse banho a meses, sou obrigado a entrar com ele na sala de reuniões, um aquario no meio da repartição sem circulação de ar:
-Meu senhor, é um prazer conhece-lo e tenho uma má e uma boa notícia..
-Ora, esse projeto já está em análise à quase 6 mese e nada...
-Então vamos a boa, o Sr. terá uma nova chance de fazer o projeto, com qualidade e com um profissional competente, aguardamos anciosos a nova entrada...
- Mas eo antigo...
Abro a pasta do processo, abro as pranchas dobradas, o parecer da análise e começo...
-Na minha vida como profissional nunca vi tantas barbaridades num unico projeto, não existe nenhum parâmetro construtivo dentro da legislação municipal, creio eu que quem fez isso deve ser preso por exercício ilegal da profissão...
Seu olhar há horror, um ódio começa a tomar conta de sua face e o cheiro fica insuportável...
-Aquele filho da puta daquele projetista me cobrou R$3000,00 pelo projeto...Grita ele..
- O barato pode sair caro...
minha chefe entra pelo grito do cidadão...
-tudo bem aqui...
olho para ela e pisco, ela entende e sai..
-Faça projetos com que entende, procure um arquiteto...
ele se levanta, pega o projeto, olha prá mim e diz:
-Obrigado meu filho, vou fazer é um estacionamento do terreno..
Começo a rir, volto ao meu boxe e recebo uma nova missão visitar comunidades carentes...(essa é uma outra história...)

quarta-feira, agosto 01, 2007

Marretadas

Quando era pequeno, ouvia nas minhas férias em Juiz de Fora, uma sinfonia de marretadas proporcionadas num fazer cotidiano de obras que não acabavam nunca..Aquele som unisonoro, repetitivo, seguia um compasso misterioso, de acordes quem não poderia entender...
Marretadas que reconstruiam eternamente os desejos dos homens...marretadas que punham abaixo uma outra era.Aí se foram o moderno, o eclético, o colonial, considerados ultrapassados trocados pela nova estética do feio.
Em São Paulo, São Caetano do Sul, o som que me intrigava era o oposto aos que ouvia em JF, ouvia ao longe betoneiras que roncavam o crescimento da metropole, roncos suaves e contínuos de um crescimento que me fez boquiaberto na minha ultima viagem, como tudo mudou...
Quando sai de SCS para JF, nunca imaginaria que aqueles sons se cruzariam o ronco que nunca soube o que era e as marretadas tão presentes, como poderia eu, tornar-me o senhor-do-destino de lembraças concretas, tijolos-vidas, que ao som da marreta se tornam fraguimentos, ruídos da existencia, entulho de memória, nada para amanhã ou apenas suor daqueles anonimos, automatos do fazer.
Como maestro, minha orquestra é organizada, tenho a posição certa de cada instrumento e a hora certa de cada toque... construo a composição, me perco no devaneio de saber que na marretada há o ruído de nossa era: da alienação, da loucura, da banalidade, da cacofonia, e assim vou regendo o caos e o apocalipse, a loucura e saber que as intensões já encheram o inferno, e estão superlotando a terra...
As marretadas deveriam ser defragadas contra atitudes, que me chocam, e não contra modos de vida ditos ultrapassados , mas que me mostram o caminho contra a feiura...

...

CAUSOS E COISAS DO GÊNERO.