sexta-feira, dezembro 10, 2010

Minha gente, Salvemos Ouro Preto.

As chuvas de verão ameaçaram derruir Ouro Preto.
Ouro Preto, a avozinha vacila.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.

Bem sei que os monumentos veneráveis
Não correm perigo.
Mas Ouro Preto não é só o Palácio dos Governadores,
A Casa dos Contos,
A Casa da Câmara,
Os templos,
Os chafarizes,
Os nobres sobrados da Rua Direita.


Ouro Preto são também os casebres de taipa de sopapo
Agüentando-se uns aos outro ladeira abaixo,
O casario do Vira-Saia,
Que está vira-não-vira enxurro,
E é a isso que precisamos acudir urgentemente!


Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.


Homens ricos do Brasil
Que dais quinhentos contos por um puro-sangue de corridas,
Está certo,
Mas dai dinheiro também para Ouro preto.


Grãs-finas cariocas e paulistas
Que pagais dez contos por um modelo de Christian Dior
e meio conto por uma permanente no Baldini,
está tudo muito centro,
Mas mandai também dez contos para consolidar umas quatro casinhas de Ouro Preto.
(Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto vos acrescentará...)


Gentes de minha terra!
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa vontade de autonomia nos sonhos frustrados dos Inconfidentes.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa arte nas igrejas e esculturas de Aleijadinho.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa poesia nos versinhos do Desembargador.


Minha gente,
Salvemos Ouro Preto.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.




Todo o texto de Manuel Bandeira aqui encontrado, é do livro
"ESTRELA DA VIDA INTEIRA - POESIAS REUNIDAS"
(7a. edição - 1979 - Livraria José Olympio Editora)

domingo, novembro 07, 2010

o forasteiro e o bom homem

Certa vez, num antigo povoado, vivia um bom homem, pai amoroso, membro presente e ativo na comunidade, era referencia a todos sendo quase um juiz em alguma querela que surgia.
O inverno tinha sido rigoroso, ninguém ia ou vinha da aldeia, as fortes chuvas praticamente transformaram as estradas em lamaçais. Durante uma forte tempestade surgiu um homem, cambaleante.
A chuva caia sem cessar, e o homem apenas via a luz de algo parecido com uma estalagem, bateu na porta, nada, ninguém o atendeu, seguiu e continuando a caminhada encontrou um estábulo e lá despiu-se das vestes ensopadas e deitou entre o capim para um merecido descanso.
Pela manhã, a chuva havia cessado e dois garotos que perseguiam  um perdiz entraram no estábulo e encontraram o homem nu deitado, sobre este  roupas diferentes que secavam, uma bolsa com ferramentas, e o que despertou-lhes a cobiça : um pequeno saco de pedras preciosas, não pensando nas conseqüências, roubaram tudo deixando apenas para o homem seus trajes sumários.
O Superior da cidade convocou os principais para irem pelas as estradas verificando o seu estado e a possibilidade de irem a outros cantos da província. Mandou o guarda-mor selar os cavalos e este  encontrou o forasteiro dormindo, o acordou aos chutes, e logo o levou a presença do Superior. Este logo interrogou a origem, o que fazia e quem ele era. Como o homem fora roubado, nada podia provar o que dizia e qual era suas intenções. Explicou que que ia a um reino distante construir um templo ao maior rei que já existira.
Todos riram-se e colocaram o homem no tronco de suplícios, em praça pública era escarnecido e mal-tratado pelas crianças, loucos e bêbados que passavam.
Os garotos viram aquele homem agora prisioneiro e temeram o que poderia acontecer já que sabiam quem ele era, como não sabiam ler nada entediam dos pergaminhos, dos desenhos, daqueles símbolos onde via o poder do Rei .Resolveram esconder  as coisas do forasteiro num antigo vaso de vinho, no estábulo do bom homem.
Os Principais  voltaram e relataram que as chuvas praticamente destruíram as estradas, em meio a  lama, encontraram uma égua morta, marcada com o símbolo do rei e começaram a temer que o que aquele homem dizia fosse verdade, talvez tivessem prendido um inocente, levaram o pedaço do couro do animal ao Superior que sabendo do isolamento da vila resolveu a questão do pior jeito: Executar o forasteiro na primeira lua, daí a três dias. Sumir com a égua e queimar tudo o que restara pois talvez a aldeia inteira poderia ser destruída pelo Rei furioso pela petulância de terem colocado um nobre no tronco.
O bom homem ia uma vez por semana a aldeia adquirir víveres e viu o antigo tronco de suplícios com um forasteiro, questionou-lhe  o crime que havia praticado, o forasteiro disse apenas que estava ali por falar a verdade, que era mestre-construtor e que havia perdido seu cavalo durante a última  tempestade.  
O  bom homem era velho e sábio, conhecia, ao olhar nos olhos o que era verdade e o que era mentira e vira o engano de todos ali. Foi ao Superior interceder  contra a possível injustiça, e encontrou os Principais  e o Superior com um pedaço de couro com a insígnia real e a cela que reconhecera  da visita da corte real a aldeia no passado, falou a todos do crime que cometiam, o Superior lembrou das punições rigorosas que o Rei poderia dar a todos pela humilhação que impuseram ao protegido e que a única solução era destruir tudo o que os incriminaria.
Inconformado, mas ciente de sua impotência, voltou a sua casa. Sua mulher estava assustada com a praga de ratos, que fugiam dos campos alagados e que poderiam esconder no estábulo. O bom home resolveu então limpar e arrumar o estábulo  e para sua surpresa não encontrou ratos e sim um antigo vaso de vinho com tesouros dentro: roupas diferentes, instrumentos, ferramentas e pergaminhos; logo concluiu  que aquelas coisas só poderiam ser do forasteiro. Sabia que ele seria morto ao amanhecer e resolveu que iria ajudá-lo a escapar.
A chuva voltara de uma forma descomunal, as pessoas rezavam aos deuses e as águas varriam os campos e aldeia, enquanto isso   o forasteiro estava quase afogando em meio a lama.
O bom homem seguiu em direção a aldeia, mas o rio destruiu a única ponte, resolveu mesmo assim prosseguir e aos poucos atravessou e chegou a antiga praça que estava submersa, via apenas a cabeça  que com dificuldade ainda resistia a fúria da água, foi em direção e num golpe de machado estourou as amarras libertando.
Seguiram para a casa do bom homem que devolveu os pertences ao forasteiro, contou-lhe  que havia descoberto tudo aquilo num vaso de vinho que estava em seu estábulo.
O forasteiro perguntou das pedras e disse que poderia ficar, pois por ter salvo sua vida não existia recompensa que poderia retribuir tal ato.  O bom homem falou-lhe que nada queria, sua ação era necessária e que se estivesse na mesma situação  o outro teria feito o mesmo por ele, o forasteiro concordou e se despediram.
 E nunca mais se ouviu falar daquela aldeia que um dia  fora destruída pela fúria das águas.



domingo, outubro 24, 2010

As Peneiras e João

João sempre foi um homem não muito afeito ao trabalho. Relaxado gostava apenas do dinheiro e trabalhar que é bom nada, passava horas falando mal de tudo e de todos, não via nada de bom em nada e ninguém. João trabalhava numa fábrica, ele era muito puxa-saco e ficou sabendo de rumores que  prejudicariam  o gerente que poderia ser mandado embora  e foi direto ao chefe de setor e começou a ladainha:
- Chefe, o senhor nem imagina o que me contaram a respeito do Gerente.Disseram que ele...
Nem chegou a terminar a frase, e o chefe apartou:
-Espere um pouco, João. O que vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras?
- Que peneiras, chefe?
- A primeira, João, é a da VERDADE.
Você tem certeza que esse fato é absolutamente verdadeiro?
- Não, não tenho, não.Como posso saber? O que sei, foi o que me contaram.Mas eu acho que...
E novamente João foi interrompido pelo chefe:
- Então a sua história já vazou a primeira peneira.Vamos então para a segunda peneira que é a da BONDADE.
O que você vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?
- Claro que não!!! Deus me livre! - diz João assustado.
- Então, continua o chefe, a sua história vazou a segunda peneira. Vamos ver a terceira peneira, que é a da NECESSIDADE. Você acha mesmo necessário me contar esse fato ou passá-lo adiante?
- Não chefe. Pensando desta forma, vi que não sobrou nada do que eu iria contar - fala João, surpreendido.
- Pois é, João! Já pensou como as pessoas seriam bem mais felizes se todos usassem essas peneiras? - diz
o chefe sorrindo e continuou:
- Da próxima vez em que surgir um boato por aí, submeta-o ao crivo das três peneiras: VERDADE - BONDADE - NECESSIDADE, antes de obedecer ao impulso de passá-lo adiante, porque:
PESSOAS INTELIGENTES FALAM SOBRE IDÉIAS.
PESSOAS COMUNS FALAM SOBRE COISAS.
PESSOAS MESQUINHAS FALAM SOBRE PESSOAS.

sexta-feira, maio 28, 2010

descaminhos

algo que vi sem rumo
algo que da verdade
algo que paira no ar
algo que cala
algo que move
algo
que verdade?
que paria!
cala!
Algo?
move!
Paira no ar!!!
Sem rumo?

domingo, fevereiro 07, 2010

O rei e o Zé o fabricante de piões

“Permiti-me perguntar-vos, Senhor, o que estais lendo?”
Disse-lhe o Rei: “Os Escribas. As autoridades.”
E Zé perguntou-lhe: “Vivos ou mortos?”
“Mortos há muito tempo.”
“Então”, disse o fabricante de piões, “Estais lendo apenas o pó que deixaram atrás.”
Respondeu o Rei: “O que sabes a seu respeito? És apenas um fabricante de brinquedos. Seria melhor que me desses uma boa explicação, senão morrerás.”
Disse o fabricante: “Vamos olhar o assunto do meu ponto de vista. Quando fabrico piões, se vou com calma, elas rodam, rodam e caem, se vou com muita violência, eles não se ajustam. Se não vou nem com muita calma, nem com muita violência elas se adaptam bem. O trabalho é aquilo que eu quero que ele seja. Isto não podeis transpor em palavras: tendes apenas de saber como se faz. Nem mesmo posso dizer a meu filho exatamente como é feito, e o meu filho não pode aprender de mim. Então, aqui estou, com setenta anos, fabricando piões, ainda! Os homens antigos levaram tudo o que sabiam para o túmulo. E assim, Senhor, o que ledes é apenas o pó que deixaram atrás de si.

...

CAUSOS E COISAS DO GÊNERO.