Caro Silvio, venho por meio desta, trazer a tona meu questionamento sobre a possibilidade do encrustamento do seu cristal em meio ao filito e arvores do horto dos contos de ouro preto.
A arte, a obra de arte, é e deve ser algo que exprima a alma do gênero humano, a genialidade e a busca de algo que seja sublime, ou que revele uma nova forma de olhar velhas verdades. A sua busca é gloriosa e seus feitos são notáveis, mas houve algo que atrapalhou... a arte é feita para a arte ou é feita para o gênero humano?
O seu cristal ao lado do monólito niemeyerano, como o pingo-asterisco abaixo do travessão que o refaz numa exclamação em meio ao pastiche e o fake. É o grito do novo, é uma busca de ar em meio à atmosfera enevoada do passado tão bem copiado.
Contudo não é ouro preto, não passou pelos olhares, pelo imaginário, não seduziu o povo ou as autoridades. Numa atitude cosmopolita surgiu sem pedir licensa e sem se apresentar, aonde deveria estar o bom-dia, chegou com a seriedade de uma carranca-de-vai-de-retro.
Meu caro, sei que vc tentou, lutando contra os moinhos de vento que só giram ao sabor daquela brisa carioca que por tanto tempo reinou e reina nos ares mineiros e que seria seu vizinho, brisa sólida que marca em alvenaria azul e branca o panorama da cidade que em outros tempos foi defendida pelos amigos e que deveria significar algo bom, não sabe pra quem, mais dizem que significou.
Peço que volte, venha tomar um café com os mortais, mostrar aos anônimos o novo, como um artista de rua que vende seus poemas, mostre as novas palavras necessárias, mostre seu discurso coerente e sua fala fácil.
Talvez vc não se lembre das vezes que conversamos, da cerveja e da cachaça, ali vi quem era esse arquiteto da capital, dono de editora e tal, profissional talentoso e necessáriamente engajado.
Às vezes o não é para fazer com que o sim tenha mais sentido, pois o não cria a possibilidades, a contestação só será valida se o argumento convencer, a mim e a quem quer que passe pelo diamante que só brilhará para poucos.
O moinho continuará girando após a brisa do mar, com o sobro dos morros, dos vales e talvez do horizonte.