Da série Cultura Noir
O interrogatório
- Eu quero ligar pro meu Advogado.
- Vai ligar. O que o sr. é?
- Arquiteto
- O que o sr faz?
- Eu adorno fachadas conforme as tendências da moda.
- Como assim?
- Negócios de curto prazo.
- O que vai acontecer a longo prazo?
- Todos os prédios vão ficar fora de moda
- Sei. E aí?
- Daí vão refazer a fachada conforme as tendências da moda.
- O sr. só muda a fachada?
- Só a fachada. Tem um cigarro?
- E dentro?
- Tudo igualzinho.
- O sr quer dizer que dentro não sai de moda?
- Pior. Sai de uso.
- Como assim?
- O senhor tem quarto de empregada?
- Tenho.
- Ela dorme lá?
- Eu não tenho empregada.
- Posso ligar pro meu advogado?
- E as pessoas não reclamam?
- O senhor reclama?
- Eu faço as perguntas aqui
- Mas não na hora de comprar o apartamento não é? A sua mulher acha que as colunas no meio da sala ornam com a cristaleira,e isso é tudo. O telefonema...
- Você conhece minha mulher?
- De certa forma; você tem um american bar, mas não bebe; recebe visitas numa sala minúscula e toda vez tem que ficar buscando cadeira na sala de almoço, que vive às moscas porque seus filhos almoçam na frente da TV, num cubículo que se tornou insalubre desde que entregaram o sofá novo, com regulagem pra inclinar e não pode ficar encostado na parede; você tem bidê?
- Escute aqui eu não sei como você sabe tudo isso ou entrou na minha casa, mas vai ter que...
- Eu não entrei na sua casa, nem na de ninguém; eu só adorno fachadas.
- E porque é que você não entra então que diabos!!! Sim eu tenho um bidê, e uma banheira,e não servem pra nada!!!
- Sinto muito, isso não dá dinheiro. Já tentei até, juro; mas as pessoas não entendem nada de arquitetura, vivem em lugares com divisões anacrônicas, equipamentos inúteis e móveis inadequados. Elas gostam disso. Um dia tive essa revelação: as pessoas não querem viver confortável e racionalmente, elas querem uma cenografia adequada ao papel que elas representam;o máximo que elas precisam é de um retoque na maquiagem, esse é o grau de exigência. E é isso que eu faço com a fachada delas. O senhor vai me dar o meu telefonema ou eu...
- Pode ir.
- Hein?
- Pode ir. Eu já tenho as respostas que eu queria. Só mais uma pergunta...
- Ah, sim, o que é?
- O que eu faço com aquele maldito sofá???