Sempre quis ser um profissional competente, aprender com quem sabia os segredos e o "caminho das pedras" da minha profissão, e deparar com desafios como degraus de uma escada longa da carreira..
Durante a faculdade comecei a estagiar cedo, pois o ensino é sucateado e te dá uma visão limitada do mundo, você apenas está vendo pelo ponto de vista do professor e de alguns autores e nada mais. Fiz estágios em orgãos públicos e em empresas privadas e abaixo relaterei um causo:
Nos idos de 2004, o então Prefeito pôs em pratica a reforma administrativa, aos olhos de quem estava de fora do processo parecia que estavamos no caminho certo.... Eventos como a palestra de nada menos que um dos responsáveis pela transformação de Barcelona... Plano de Desenvolvimento Estratégico...
A empolgação estava no ar, um conhecido meu havia conseguido um estágio na Diretoria de politica urbana, via QI; Usando da mesma desculpa, liguei para a prefeitura na maior cara de pau e disse que eles tinham uma vaga para mim e fulano que tinha me indicado...Batata..
segunda-feira eu começaria no Centro Regional Centro...
Na época meu visual universitário beirava o trash... tinha um cabelo black-power... cavanhaque... roupas largas e tenis vermelho...
Chegada a segunda... Eram duas da tarde, subi as escada da repartição e me dirigi aos boxes da Supervisão técnica, lá minha chefe-imediata me esperava, converçamos sobre minhas responsabilidades e fui conhecer meus superiores, o Diretor da Regional e o Supervisor, pessoas integras e que desempenhavam bem os seus papéis..
Fui tomar um cafezinho na copa e me deparei com os fiscais ... eles ao me verem esperavam cada um em sua cadeira pelo "cabeludo", que fosse pedir alguma muamba que eles haviam apreendido... nada passei ao largo e fui ao meu box...Os fiscais se levantaram e me seguiram com olhar...no próximo café fui interrogado por milhões de boas-vindas e de onde vc vem...
O trabalho numa nova divisão da prefeitura era algo estranho, não tinhamos autonomia para nada e parecia que estavamos numa engrenagem nova, de uma velha maquina, encaixavam bem mas ninguem sabia para que servia... Eu tinha que levantar as demandas das comunidades e fazer pequenos projetos de intervenção para futuras execuções.. tinhamos as associações de moradores e o jornal do município como fontes, o trabalho era necessário porém pouco valorizado, pelo detentores de recursos da máquina administrativa....
Aos poucos fui vendo que só a supervisão dos aspectos urbanos, em realidades que as construções é que necessitavam de ajuda...Mexendo em antigos projetos me deparei com um projeto dos anos 40-50 da prefeitura; casas operárias/proletárias... projetos prontos aos menos favorecidos... achei os projetos ultrapassados, mas a idéia atual e me propuz a atualizar a idéia, não com o formalismo das plantas e sim do projeto adaptado a realidade do morador, durante um mês pus-me a vetorizar e criar maquetes virtuais dos novos projetos...montei um folder aos interessados e enviei aos detentores de recursos a idéia repensada...(espero até hoje o retorno)
Dias passaram e nada, então minha superiora dividiu comigo a tarefa de analisar os projetos para aprovação na nossa regional, pois o serviço chegava a acumular 3 meses de espera.
Peguei o código de obras do município li e começei a interpletar os projetos com a luz da lei, vi como os projetistas, não entendiam nada de distribuição espacial, organizavam plantas num jogo de aperta-encolhe, como se a vida de seres humanos fosse não a finalidade daqueles projetos e sim um mero detalhe no scale do AUTOCAD, projetos que deveriam levar a cadeia quem os fez e quem os encomendou... minhas críticas foram exteriorisadas em apenas um projeto que rejeitei...
Era um prédio de três pavimentos a ser construido no meu bairro; dois quartos, sala,cozinha e área conjugada por unidade, quatro unidades por andar. O terreno era de uma antiga cas com quintal, espaçosa e humana.
O projeto começou errado, não levou em conta os afastamentos, as dimensões mínimas de cada cômodo, tinha um foso com lugar para iluminaçãoe e ventilação, na minha mão estava um código de obras que teve sua origem os melhores cõdigos europeus e que tinha as medidas mínimas para uma vida com o mínimo de dignidade.
Diferentemente da minha superiora, peguei um marca texto vermelho e tracei os afastamentos, os raios, as medidas mínimas, o resultado final ficou entre o surrealismo e o cubismo, uma prancha toda redesenhada. Peguei o carimbo e bac... rejeitado. Fechei o processo e coloquei na minha nova pilha sobre a mesa da minha chefe.
Na manhã do outro dia... Um Nossa.... estridente encheu os corredores da repartição, o choque de ver aquilo deixou-a perplexa... Imediatamente ligou para o proprietário e marcou a tarde... Duas horas chego, como todo dia; sento, ligo o computador, levanto, vou ao café volto, e me deparo com o processo aberto sobre minha mesa, e o olhar de agradecimento misturado com o horror de minha chefa...
-Anderson, era mais ou menos assim, mas não com tanta dedicação..
Chefa,interrompo:
-Marque com o proprietário que eu explico, tudo tudo ao interessado;
-ele já deve estar chegando.Ela me diz.
Entra um senhor distinto, bem arrumado, porém fedia como se não tomasse banho a meses, sou obrigado a entrar com ele na sala de reuniões, um aquario no meio da repartição sem circulação de ar:
-Meu senhor, é um prazer conhece-lo e tenho uma má e uma boa notícia..
-Ora, esse projeto já está em análise à quase 6 mese e nada...
-Então vamos a boa, o Sr. terá uma nova chance de fazer o projeto, com qualidade e com um profissional competente, aguardamos anciosos a nova entrada...
- Mas eo antigo...
Abro a pasta do processo, abro as pranchas dobradas, o parecer da análise e começo...
-Na minha vida como profissional nunca vi tantas barbaridades num unico projeto, não existe nenhum parâmetro construtivo dentro da legislação municipal, creio eu que quem fez isso deve ser preso por exercício ilegal da profissão...
Seu olhar há horror, um ódio começa a tomar conta de sua face e o cheiro fica insuportável...
-Aquele filho da puta daquele projetista me cobrou R$3000,00 pelo projeto...Grita ele..
- O barato pode sair caro...
minha chefe entra pelo grito do cidadão...
-tudo bem aqui...
olho para ela e pisco, ela entende e sai..
-Faça projetos com que entende, procure um arquiteto...
ele se levanta, pega o projeto, olha prá mim e diz:
-Obrigado meu filho, vou fazer é um estacionamento do terreno..
Começo a rir, volto ao meu boxe e recebo uma nova missão visitar comunidades carentes...(essa é uma outra história...)