Certa vez perguntei qual foi o dia mais importante na vida de minha mãe, ela me disse que foi quando eu e minha irmã nascemos....meu pai tambem disse a mesma coisa, e completou quando ele nasceu de novo após uma complicadissima cirurgia que fez no cérebro...Minha vida foi um pouco tumultuada, bem tumultuada, tumultuadissima....Minha infancia foi dentro de um megacondomínio fechado vertical e modernista em SCS, lá viviamos o milagre econômico visto pelos olhos dos metalurgicos, algo que talvez hoje, seria transformado num drama de suburbio-crime-violência, foram mágicos aqueles dias, aquela época distante e nostálgica.
Minha mudança para Juiz de Fora foi traumática, não queria ir para aquela cidade, aquele povo de fala estranha, aquele prédio, feio e mofado....o contato com meus avós maternos diminuiram o trauma dos primeiros momentos...minha nova escola tinha tradição e qualidade, meus novos colegas; como eu vinham das mais diversas cidades, porem do êxodo rural. Eu vinha do anti-êxodo...
Anos passaram, amigos, amores, skate, reggae, hardcore, metal, punk, choro, samba, mpb, diskman, camelinho, milhões de papos, cervejas, festas, ficadas, fins-de-noite que não acabavam nunca...
Vestibular... Não tive a oportunidade de fazer o que gostava, sonho da época que consegui pegar umas ondas...Oceanografia, curso distante, mas não impossível...
Comunicação UFES, nova vida, sol, praia, garotas, falta de dinheiro....go back Juiz de fora....
Vestibular... Fiquei na rabeta... Arquitetura e Urbanismo...
Lembro que no dia que escolhi o curso... estavam trocando a fiação dos poste da Av. Rio Branco, e por uns instantes a Engenharia elétrica ou Cívil, dançaram com o doce perfume de sua sedução cruel frente as minhas aspirações do que faria durante a minha vida... Arquitetura e Urbanismo... não sabia bem o que era...
Niemeyer, meus avós, que da forma deles também fizeram suas construções com o espírito da época, com materiais, com o sonho e a intenção de produzir algo habitável e humano...código 33, segunda opção código 24. Arquitetura ou Engenharia Cívil. o jogo estava lançado numa manhã fria de novembro do ano de 98....
O primeiro dia na faculdade, parecia cada vez mais longe, os anuncios na rádio-praia em Piúma, deixaram-me atordoado.... Eles começaram a ler todos os aprovados (depois de Cabo Frio, Piúma e Iriri/ES, são redutos de Juizforanos de férias).
Na época namorava a Marcela e estava com sua irmã que acabara de ser aprovada em Educação Fisica; lembro-me em pedir uma cerveja "prá comemorar" e engulir aquela derrota... mas não desanimei, peguei nos correios um papel do instituto universal brasileiro e começei a fazer o curso de desenho arquitetônico... era curioso e dramática minha atuação..
A primeira aula foi no ICE, encontrei-os juntos como gado acuado no matadouro, pessoas que deveria passar 5 anso de faculdade.. Gostei de ver 5 mulheres para cada rapaz era uma matemática que muito me agradava...
Havia umas meninas bem bonitinhas, e pensei: já é...o trote foi sádico como eu esperava, nada de mais...nem lembro direito só lembro de um palitinho e a minha felicidade de passar para uma colega lindinha... a facul é algo curioso... vc aprende mais na cantina e nas viagens do que na sala, a cantina, a biblioteca, o bar e as reuniões dos trabalhos moldaram minha geração de profissionais. milhares de quilometros de esboços, croquis, e perspectivas em guardanapos, toalhas de mesa, e papeis desviados a tal fim...
Durante a facul, vi meninas se transfomando em mulheres, peruas, bruacas; garotos, em homens, profetas, automatos, ou lunáticos... Um imenso laboratorio de vida e de transformação.... Vivi com os melhores, piores, e a sombras de nossa época... mas chega o dia do ... -Vai lá meu filho! e te dão uma folha meio transparente, com os dizeres de sua nova profissão...
nesse dia havia perdido minha carteira em Tiradentes, durante a mostra de cinema... protelando por dois meses minha saida...
cheguei, subi a sala do pró-reitor, mais três ou quatro..um juramento e a tal folha estava em minhas mãos...
A vida de profissional num país como o nosso beira o desespero, tudo e todos os impostos, nenhum incentivo ou orgão de encaminhamento de empregos ou projetos, um mundo do cão e da selvageria, Engenheiros, pedreiros, mestres, desenhistas, arquitetos, não-seis, se acotovelando, se esmagando mutuamente por um lugarzinho que seja... 2 anos de aperto, lutas, clientes, bons e ruins... Chega!
- Ano que vem serei funcionário-público, profetizei na virada do ano na minha terra natal..como um ciclo que se fechava ...voltará eu de onde havia saído, e agora punha um objetivo claro do que seria minha nova escolha, um novo marco, um novo rumo...
começo a me dedicar, a estudar, vem o primeiro, segundo... terceiro.... começa a vir os resultados...12º, 4º, 2º...passei...
A ansiedade de esperar um resultado, pode proporcionar desde de uma dor-de-cabeça a uma dermatite...que foi meu caso... Yoga, Respiração, Oração, tudo prá espantar a ansiedade...
o melhor de tudo é ver seu nome na lista...na boa lista é claro....
Hoje o vi, estava lá com meus novos companheiros de trabalho, um após o outro..
Estou numa felicidade misturada com ceticismo, pois o objetivo era claro...Agora vem o dia de amanhã...mas isso é uma outro história..
mto bom o texto...
ResponderExcluirdepoimento sincero,
que por isso mesmo
transmite a real angústia
do ser humano em seus momentos
da vida...
num mundo de fantoches, egos e
status ou de vaidades é sempre
bom encontar gente que sofre
que ri, que fala, que bebe,
que se arrepende e que um dia
aprende...o difícil caminho "dessa tal felicidade",
como já dizia o doidão e espetacular tim maia...
Alex